segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Rosalba concede entrevista ao Jornal De Fato

POR MAGNOS ALVES E CÉSAR SANTOS

PREFEITA ELEITA CONVERSA COM O DE FATO
Em entrevista exclusiva ao JORNAL DE FATO, a prefeita eleita de Mossoró, Rosalba Ciarlini (PP), afirma que vai governar sem radicalismo e informa que vai chamar a classe empresarial, que deu sustentação ao candidato Tião Couto (PSDB), para contribuir com a sua gestão. Rosalba também adianta que vai buscar o diálogo para manter o projeto original do Corredor Cultural da Avenida Rio Branco, sem abrir mão de agir com rigor para impedir construção na área que fira o interesse público. A prefeita eleita fala ainda sobre o apoio das ex-prefeitas Fafá Rosado e Cláudia Regina a Tião Couto, da formação do secretariado e adianta que vai fazer uma reforma administrativa.
JORNAL DE FATO – Em janeiro de 1997, quando a senhora assumiu a Prefeitura pela segunda vez, pegou o caos, principalmente financeiro. Salários atrasados quatro meses, dívidas com fornecedores, serviços paralisados. Agora o cenário é o mesmo, mas os tempos são outros. É possível reconstruir em quatro anos? Como a senhora pretende fazer?
ROSALBA CIARLINI – Sei das dificuldades que irei enfrentar e estou aguardando receber informações precisas, mas creio que com muito trabalho e esforço, além da parceria com a população e os demais segmentos da sociedade, poderes e Ministério Público, poderemos fazer uma grande força-tarefa para fazer o que todos querem:
ver a cidade se recuperando e prosperando novamente. Aliás, foi exatamente por causa dessa situação que o povo me convocou. Ouvi o clamor da população diante dessa administração, em todos os bairros da nossa cidade.
Recebi a confiança e vou retribuí-la com muito trabalho. A primeira grande tarefa é buscar reequilibrar as finanças e recuperar os serviços básicos essenciais. Sei os caminhos pela minha vivência política e irei buscar apoio em Brasília junto à bancada federal e nos Ministérios e outros órgãos governamentais desde agora.
A COLIGAÇÃO Força do Povo, que deu sustentação a sua candidatura vitoriosa, elegeu apenas quatro vereadores, logo a senhora iniciará o governo sem maioria no Legislativo. A senhora espera obstáculos na Câmara para o processo de reconstrução da cidade?
NÃO tenho dúvidas que a Câmara Municipal vai entender a grave situação do Município. Não se trata de aprovar um governo que está começando. Mossoró está precisando da união de todos para sair dessa situação indesejável. Precisamos de uma força-tarefa. Os interesses político-partidários devem ficar para outros momentos e é por entender assim que, desde já, convoco todos os vereadores para essa reconstrução.
É POSSÍVEL que a senhora já assuma a Prefeitura com maioria na Câmara?
CADA vereador é quem deve responder pela posição dele. O que eu espero, na verdade, é uma legislatura que compreenda o grave momento que Mossoró está atravessando. Nosso município está sofrendo. Precisamos de apoio para recolocarmos Mossoró no rumo certo.
O PODERIO econômico que a senhora enfrentou e superou nas urnas tem origem no PIB da cidade, que deu sustentação à campanha do empresário Tião Couto (PSDB). Esse segmento, importante para a economia local, será chamado para participar do seu governo?
SIM. Tenho a convicção que Mossoró não suporta mais a cultura do radicalismo. Por isso, independente das posições eleitorais que as pessoas tomaram, quero contar com o apoio de todos. Não temos como medir isso nas urnas, mas as pesquisas mostravam que liderávamos em intenção de voto em todos os segmentos,
como o das pessoas com ensino superior completo, então até no segmento empresarial tive considerável apoio. E aqueles que não votaram em mim, podem ter certeza que dialogarão com uma prefeita que representará a cidade, representará todos os cidadãos, independente de no momento eleitoral este tenha declarado voto em mim ou não.
Respeitarei a oposição, mas entendo que os projetos e ações que promovam a retirada de Mossoró dessa letargia devem estar acima de qualquer outro interesse. Ouvirei a classe empresarial, assim como a representatividade de outros setores produtivos, dentro do programa de desenvolvimento para o nosso município.
A SENHORA saiu do Governo do Estado naquele momento com certo desgaste administrativo, agora volta com uma vitória consagradora. A senhora acredita que foi possível durante a campanha eleitoral prestar contas das ações como governadora, já que o seu partido da época não permitiu a senhora fazer campanha pela reeleição?
EXATO. O que eu insisti à época com o meu partido foi a oportunidade para ter o julgamento do norte-rio-grandense. A campanha era a oportunidade que teria para prestar contas do que fiz no Governo do Estado, como agora, e isso Mossoró aprovou, nos dando essa vitória consagradora.
Fui boicotada e o Rio Grande do Norte sabe muito bem de onde surgiu esse impedimento. Não tive sequer o direito de divulgar as nossas ações no governo. Outros governadores e prefeitos de capital que entraram em situação semelhante que a minha, ao mostrarem suas boas intenções e obras, conseguiram mudar aquela imagem e receber o apoio da população.
Citaria aqui o caso de Teotônio Vilela Filho de Alagoas, em 2010, e João Henrique Carneiro em Salvador, em 2008. Era dito que estavam acabados politicamente, mas quando mostraram no espaço que dispunham (a propaganda eleitoral de TV e rádio), as pessoas reconheceram seus esforços e ambos surpreenderam e foram reeleitos, recuperando ao longo da campanha a imagem do desgaste administrativo.
O que posso dizer é que minha situação não era tão aguda quanto a de ambos. Nas pesquisas eu aparecia num patamar de competitividade com os então candidatos Robinson Faria e Henrique Alves. Além disso, eu já estava no período de 2014 já sendo muito bem recebida em todos os recantos, na zona norte de Natal por exemplo, num evento pré-Copa tive dificuldade de voltar para o carro em que estava, devido à quantidade de pessoas pedindo para tirar fotos comigo e me dando palavras de carinho e incentivo.
Evidentemente, após esse momento, veio uma situação dolorosa, que foi a campanha dos candidatos a governador ao longo de três meses, emitindo o discurso que estava tudo errado e que cada um faria melhor e eu sem nenhum segundo na TV para mostrar o que já estávamos conseguindo fazer.
Tínhamos muita coisa para apresentar à população: programas e ações hídricas significativas. Construímos mais de 700 km de adutoras nas regiões do Alto Oeste (Apodi, Pau dos Ferros, Luis Gomes), Seridó (Parelhas, Carnaúba dos Dantas, Currais Novos), Agreste (Nísia Floresta), além de viabilizarmos as barragens de Oiticica e Umarizeira.
Na Educação, reformamos mais de 200 escolas; investimos na formação pedagógica dos nossos educadores, convocamos mais de quatro mil professores concursados e demos mais de 100% de aumento aos professores, dobrando seus salários; resgatamos a progressão funcional;
priorizamos o pagamento da educação e muitas outras ações que valorizaram a Uern e a educação fundamental do nosso Estado. Na Saúde, também convocamos médicos e outros profissionais: reformamos hospitais e, depois de 20 anos, conseguimos zerar as filas de cirurgias ortopédicas no Hospital Walfredo Gurgel.
Também tivemos a retomada dos transplantes de rins, fígado e outros órgãos, além da implantação do Hospital da Mulher em Mossoró, infelizmente fechado recentemente; construímos o Arena das Dunas, viabilizando a Copa do Mundo e fazendo desse o mais bonito e usado dos estádios do Mundial; entregamos mais de 5 mil títulos de terra e o mais importante: o RN Sustentável, parceria com o Banco Mundial que trouxe para o nosso Estado US$ 540 milhões de dólares, recursos para a saúde, educação, segurança, agricultura e recursos hídricos e ações sociais.
Enfim, foram muitas obras e projetos que impulsionaram o RN. Na verdade, a desaprovação administrativa que foi circunstancial e nem tão aguda assim – na última pesquisa do Ibope das eleições de 2014 após três meses de campanha, com direito a segundo turno com críticas políticas massacrantes e várias das críticas injustas, cerca de 1/3 da população considerava o governo entre ótimo, bom e regular. Isso evidencia o fato que sentia nas ruas: as pessoas me respeitavam e se eu tivesse tido oportunidade de mostrar no guia eleitoral todos esses feitos, com certeza a imagem administrativa final seria outra bem melhor.
De certa forma, via como fabricada aquela desaprovação circunstancial, artificialesca, seria revertida com a oportunidade que o guia eleitoral daria: de mostrar a todos. Além disso, tive que ver muitos candidatos a deputado e a outros cargos falarem em obras que eu tinha realizado, como se fossem deles. Foi um período difícil assistir a tudo isso sem ter direito a voz.

A SENHORA já tem ideia do que vai encontrar, do tamanho do rombo que será deixado pelo prefeito Silveira Júnior?
SEI que a desorganização é imensa. Um quadro desafiador nas finanças, nos serviços de saúde, na educação e dívidas gigantescas com fornecedores, atraso de salários e muitas outras dificuldades. Infelizmente, a Mossoró que deixei não é a que encontrei. Depois de 12 anos, vamos ter que retomar a política de desenvolvimento que implantamos. Mas, estou disposta a trabalhar muito e mudar essa triste realidade.
A SENHORA foi a grande responsável por Fafá Rosado e Cláudia Regina terem chegado à Prefeitura. A senhora viu o apoio delas a Tião como uma traição?
A VERDADE é que o eleitor mossoroense me dava muito carinho, estímulo e apoio e que essa ida das ex-prefeitas, que tanto batalhei nos momentos eleitorais para afirmar que elas dariam continuidade à minha obra administrativa, não foi sentida pela parcela da população que me apoiava.
MOSSORÓ está atolada em problemas. Quais a senhora pretende atacar primeiro?
ENTRE tantas prioridades, a situação da saúde é a mais urgente. Estamos falando de vida. Ouvi relatos de pessoas que, vivendo na mais absoluta pobreza, foram obrigadas a pedir a alguém para socorrê-las porque nas unidades básicas faltavam remédios baratos, como AAS, luvas e gazes para um simples curativo. Esse é um setor que terá uma atenção especial, mas Mossoró pode ter certeza que iremos trabalhar com muito esforço para recuperar a maior quantidade de áreas essenciais, mesmo neste cenário de crise econômica.
A SENHORA foi responsável pelo Corredor Cultural, que agora está ameaçado por conta de um acordo feito por Cláudia Regina. A senhora pretende lutar pela área que hoje está cercada por empresários?
BUSCAREI o diálogo, mas agirei com rigor para garantir o cumprimento da lei que fiz definindo a Avenida Rio Branco como corredor cultural e impedindo qualquer construção ferindo o interesse público.
Sou otimista e acredito no bom senso das pessoas, não sou contra que a iniciativa privada seja parceira do soerguimento da Avenida Rio Branco, mas desde que seus projetos sejam dentro do conceito que criei lá atrás e que deu tão certo: equipamentos nos quarteirões centrais sempre voltados à cultura, lazer, educação, artes e inclusão.
A Rio Branco 2.0, projeto que lancei, tem que fazer jus à valorização que nossos irmãos mossoroenses dão justamente à cultura. Quero que, daqui a 20 anos, a Avenida Rio Branco não seja famosa apenas em Mossoró, mas seja uma avenida famosa, um cartão-postal conhecido em todo o Nordeste ou, talvez, no país inteiro. Faremos o que for possível para manter essa ideia cada vez mais forte e orgulhando todos os nossos irmãos.
COMO a senhora pretende lidar com o problema das empresas terceirizadas?
ANALISAREMOS isso e usaremos o bom senso nas decisões assim que tivermos mais informações sobre a real situação do Município.
E PARA pagar os salários dos servidores em dia, o que senhora pretende fazer?
O SERVIDOR pode esperar da prefeita todo o esforço. Tentaremos encontrar a alternativa certa e ideal para garantir o direito do trabalhador de receber pelo mês trabalhado. Sei da agonia e privação que centenas de famílias mossoroenses estão passando. Essa é uma das nossas prioridades.
DIANTE da crise econômica, reduzir o número de cargos comissionados é uma possibilidade?
É, SIM, uma das possibilidades a serem estudadas. Vamos analisar todas as decisões, pensar e tomar as melhores para que o Município volte a ter condições de honrar seus compromissos. A Prefeitura tem que gastar dentro do que arrecada; não pode jamais gastar mais que recebe. Não são os cargos comissionados os maiores responsáveis por esse desnível, mas essa resolução não está descartada. A única certeza que Mossoró pode ter é que faremos uma administração que vai buscar, desde o início, o caminho mais eficiente para a cidade voltar a funcionar, voltar a dar certo.
A SENHORA pretende fazer uma reforma administrativa?
PRECISAMOS ter uma máquina pública administrável, e isso passa por uma readequação na estrutura organização da Prefeitura Municipal de Mossoró. O que não podemos é comprometer os serviços, que, infelizmente, estão paralisados.
A SENHORA vai formar um secretariado técnico ou político, levando em conta que Mossoró precisa passar por um enorme processo de revitalização?
COMO você mesmo disse, “Mossoró precisa passar por um enorme processo de revitalização”, e esse trabalho gigantesco que teremos que fazer exige perfil técnico. Agora, é preciso sensibilidade política. Há pessoas competentes com ambas as qualidades. Mas, necessariamente, esse não será um fator dominante. O que posso dizer é que o preparo e a capacidade de realizar um bom trabalho são os principais orientadores.
O FATO de ter contado com o apoio de poucos partidos vai ajudar a senhora na formação do secretariado?
VOU repetir o que disse em todas as vezes que fui questionada a respeito: nossa aliança não passou por nenhum tipo de negociação com indicação de secretários ou quaisquer outros cargos, e essa condição nos deixa à vontade para a formação dos auxiliares do novo governo. O convite passa pela capacidade e confiança. Devo dizer também que vou administrar ao lado da cidade e ao lado também daqueles que acreditaram no nosso projeto.
OS MOSSOROENSES podem ter esperança de dias melhores nos próximos anos?
NOSSA vitória já é a prova dessa esperança. A partir de 1.º de janeiro, viveremos um tempo de trabalho, seriedade e muita determinação, para resgatarmos a autoestima da população e vermos Mossoró voltar a crescer. Vamos, juntos, construir uma cidade de muita paz e de uma vida melhor para todos.

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