quinta-feira, 12 de outubro de 2017

30 mártires são canonizados pelo papa Francisco; conheça a história

Em 1645, moradores do Rio Grande do Norte resistiram aos holandeses. Mais de 80 pessoas foram mortas.

 Monumento aos Mártires de Cunhaú e Uruaçu, em São Gonçalo do Amarante, no RN  (Foto: Wagner Varela ) Monumento aos Mártires de Cunhaú e Uruaçu, em São Gonçalo do Amarante, no RN  (Foto: Wagner Varela )
Monumento aos Mártires de Cunhaú e Uruaçu, em São Gonçalo do Amarante, no RN (Foto: Wagner Varela )




Foi na Capitania do Rio Grande do século 17 que viveram os homens, mulheres e crianças que se tornarão os novos santos brasileiros neste domingo (15). O papa Francisco vai canonizar, de uma só vez, trinta fiéis mortos pelos holandeses calvinistas nos massacres de Cunhaú e Uruaçu em 1645, no Rio Grande do Norte.
Naquela época, os holandeses invadiram o Nordeste do Brasil, pois tinham interesse nos engenhos de cana-de-açúcar. Os comandos, no país, partiam de Pernambuco. Além do objetivo econômico, entretanto, os invadores tantavam impor a religião calvinista por onde passavam e não toleravam a fé católica, segundo conta o padre José Neto, pároco de Canguaretama, na Grande Natal.
Em terras potiguares, os holandeses foram liderados pelo alemão Jacob Rabbi, que reuniu uma tropa formada por soldados e índios e atacou o engenho de Cunhaú, no município de Canguaretama. O ataque aconteceu na manhã do domingo 16 de julho de 1645, dentro da Capela de Nossa Senhora das Candeias, onde era celebrada uma missa. Três meses depois, um novo ataque aconteceu em Uruaçú, em São Gonçalo do Amarante, também na Grande Natal. Ao todo, 80 pessoas foram mortas.
Cunhaú
Os colonos que moravam ao redor do engenho de Cunhaú tinham uma vida simples, trabalhando no plantio da cana-de-açucar - a grande riqueza econômica da época. Rabbi chegou ao local no dia anterior. Ele era conhecido pelos moradores da região, pois já havia passado por lá anteriormente, sempre escoltado pelas tropas dos índios. No dia 16, como de costume, os fiéis se reuniram para celebrar a eucaristia e foram à missa. Rabbi teria afirmado que iria ao local para dar um aviso.
O pároco, padre André de Soveral, começou a cerimônia. Entretanto, depois do momento da elevação do Corpo e Sangue de Cristo, as portas da capela foram fechadas, dando-se início a violência ordenada por Jacob. A tradição conta que o padre ainda segurava o cálice da consagação da hóstia, quando foi morto.

Do lado de fora da capela, outras pessoas tentaram resistir com armas, mas também foram mortas. Essas não são consideradas mártires pela Igreja Católica.
Uruaçu
Dizem os cronistas que, logo após o primeiro caso, o medo se espalhou pela Capitania. A população recesseava que houvesse novo ataque e buscou abrigo na Fortaleza dos Reis Magos (denominada Castelo Keulen, na época) e numa paliçada construída distante cerca de três léguas dali. Porém essas pessoas foram aprisionadas pelos holandeses e ficaram sob poder deles por cerca de três meses. No dia 3 de outubro, levadas em embarcações até Uruaçú, elas foram cercadas pelos algozes e mortas com crueldade ainda maior.
As vítimas tiveram as línguas arrancadas para que não fossem proferidas orações católicas. Além disso, os mártires tiveram braços e pernas decepados. Crianças foram partidas ao meio e degoladas. O padre Ambrósio Francisco Ferro foi muito torturado e o camponês Mateus Moreira teve o coração arrancado. Ainda vivo, ele exclamou: "Louvado seja o Santíssimo Sacramento", segundo conta a história.
Beatificação
Em reconhecimento ao feito dos Mártires de Uruaçu, em 16 de junho de 1989 o processo de beatificação foi concedido pela Santa Sé. Em 21 de dezembro de 1998 o papa João II assinou o decreto reconhecendo o martírio de 30 brasileiros, sendo dois sacerdotes e 28 leigos.
A celebração da beatificação aconteceu na Praça de São Pedro, no Vaticano, no dia 5 de março de 2000. A cerimônia religiosa foi presidida pelo papa João Paulo II. No local do massacre, foi erguido o 'Monumento aos Mártires', inaugurado no dia 05 de dezembro de 2000, com capacidade para receber 20 mil peregrinos.
O espaço é aberto a turistas e religiosos, e a cada mês de outubro recebe centenas de fiéis. Ele abrange uma área de dois hectares, doada pela família Veríssimo, proprietária da fazenda. O monumento foi projetado pelo arquiteto Francisco Soares Junior. Desde 2006, o dia 03 de outubro é feriado estadual em comemoração ao Dia dos Mártires de Uruaçu e Cunhaú, segundo Lei Nº 8.913..

A canonização dos mártires foi autorizada pelo Papa Francisco em março de 2017. O próprio papa dispensou comprovação de milagre atribuído aos mártires, mas existem pessoas que atribuem ações milagrosas a eles.
Segundo a Arquidiocese de Natal, serão canonizados (nem todos têm os nomes identificados):
Pe. André de Soveral;
Pe. Ambrósio Francisco Ferro (português);
Mateus Moreira;
Domingos de Carvalho;
Antônio Vilela Cid (espanhol)
Antonio Vilela, o moço e sua filha;
Estevão Machado de Miranda e suas duas filhas;
Manoel Rodrigues Moura e sua esposa;
João Lostau Navarro (francês);
José do Porto;
Francisco de Bastos,
Diogo Pereira;
Vicente de Souza Pereira;
Francisco Mendes Pereira;
João da Silveira;
Simão Correia;
Antonio Baracho;
João Martins e seus sete companheiros;
A filha de Francisco Dias.

Fonte G1 RN



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