sábado, 8 de dezembro de 2018

Preso no presídio de Mossoró, suspeito da morte de Marielle diz ao MPF que 'jogo do bicho' pagava a polícia para não esclarecer homicídios


O Jornal Nacional teve acesso, com exclusividade, ao depoimento de um dos principais suspeitos da morte da vereadora Marielle Franco. Orlando Oliveira de Araújo falou ao Ministério Público Federal em Mossoró, no Rio Grande do Norte, e fez várias acusações contra a Polícia Civil do Rio.

Segundo o miliciano, havia um esquema financiado por contraventores do jogo do bicho para que um grupo de matadores de aluguel, conhecido como Escritório do Crime, agisse sem que a Delegacia de Homicídios desvendasse assassinatos. A Polícia Civil nega e diz que o criminoso tenta desmoralizar e desacreditar a instituição.


Orlando diz que não sabe quem mandou matar a Marielle, mas acredita que a vereadora foi assassinada por um grupo de assassinos profissionais, pela forma como o crime foi praticado.

Segundo ele, esses grupos nunca usam armas de um único disparo. Só armas de rajada. Orlando também chama a atenção para o tipo de carro usado. Normalmente são carros sedan. Brancos ou cinzas, cores mais comuns, para não serem rastreados.

Suposta propina de R$ 300 mil

A suposta corrupção na Divisão de Homicídios, segundo o miliciano, envolvia até a chefia. Ele disse o ex-titular da Homicidios, Rivaldo Barbosa, atual chefe da Polícia Civil, recebeu R$ 300 mil para não investigar a morte de um contraventor, que teria sido assassinado a mando do jogo do bicho em 2016. Orlando diz que viu o dinheiro numa bolsa verde.

Segundo Orlando, pelo menos 12 homicídios do Escritório do Crime deixaram de ser desvendados mediante pagamento da propina. Entre eles, o do então presidente da Portela, Marcos Falcon.

No depoimento, Orlando revelou que havia um esquema de distribuição de dinheiro do jogo do bicho tanto para a Secretaria de Segurança – que ficava com R$ 500 mil – quanto para as delegacias, que recebiam de R$ 6 mil a R$ 40 mil. Mas não disse com que frequência o valor era pago pelos contraventores.

Ele admitiu que ele mesmo deu dinheiro para a Divisão de Homicídios. Disse que os policiais cobraram R$ 20 mil reais para liberarem a mulher dele depois de encontrarem uma pistola na casa deles. E que o dinheiro foi para equipe então chefiada pelo delegado Rivaldo Barbosa. Ele nega

Em outra ocasião, disse que pagou para não ser preso pelos policiais da Delegacia de Homicídios. E que morou seis anos no mesmo endereço e não o prenderam porque não quiseram.

O depoimento dado aos procuradores do Ministério Público Federal no Rio Grande do Norte foi enviado à Procuradoria Geral da República, em Brasília.

PF apura conduta da polícia

Depois dessas declarações, Orlando voltou a ser ouvido outras vezes pelos procuradores da República. Na quinta-feira (6), prestou depoimento à Polícia federal.

Uma equipe da PF coordenada por três delegados conduz o inquérito aberto a pedido pela procuradora-geral, Raquel Dodge, sobre a atuação da Polícia Civil do Rio, que há 9 meses investiga o caso Marielle, sem resposta.

Delegado pediu confissão, diz Orlando

Orlando de Curicica pediu para ser ouvido pelo Ministério Público Federal. Alegou que estava sendo pressionado pela polícia do Rio para assumir a autoria do assassinato de Marielle.

Orlando contou a dois procuradores federais, no dia 22 de agosto de 2018, que o responsável pela Divisão de Homicídios, Giniton Lages, esteve no presídio de Bangu em maio. O delegado queria ouvir ele confessar que matou Marielle a mando do Siciliano.

Ele se referia ao vereador Marcelo Siciliano, do PHS. Ele entrou para lista de suspeitos do crime depois que uma testemunha contou à polícia ter visto Marcelo Siciliano e Orlando de Curicica num restaurante tramando a morte da vereadora. As declarações foram reveladas pelo jornal O Globo.

Orlando acusa a testemunha de ser um miliciano que se desentendeu com ele. Disse ter respondido ao delegado Giniton Lages que não tinha envolvimento com o caso. E que o delegado teria pedido então para ele acusar o vereador Marcelo Siciliano.

"Fala que o cara te procurou, pediu pra você matar ela, você não quis, e o cara arrumou outra pessoa. Mas que o cara que pediu pra matar ela. “

Orlando recusou e disse que foi ameaçado. Falaram que iam transferi-lo para um presídio federal e colocariam mais três ou quatro homicídios na conta dele.

Orlando contou que, caso ele confessasse, o delegado chegou a prometer a ele perdão judicial. Segundo o miliciano, Giniton Lages disse que veio no carro sonhando com isso. Que se ele aceitasse, seria o fim do caso Marielle.

Orlando está preso na penitenciária federal de segurança máxima de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Ele chegou a vestir a farda de Policial Militar por um ano, mas escolheu o caminho do crime e se tornou chefe de uma milícia que cobra por serviços clandestinos e segurança impondo medo aos moradores da Zona Oeste do Rio. Principalmente, no bairro de Curicica – daí o apelido.

Ele foi preso em 2017, por homicídio e por porte ilegal de arma. Estava no Complexo Penitenciário de Bangu, no Rio. Em junho deste ano, foi transferido para a penitenciária de Mossoró, depois de ser apontado por uma testemunha como um dos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março.

O que diz que polícia?

O chefe da Polícia Civil do Rio, Rivaldo Barbosa, disse que as declarações de Orlando são levianas e têm o objetivo de tumultuar a investigação do caso Marille conduzida com dedicação e seriedade.

A Polícia Civil declarou que a conduta de Rivaldo Barbosa à frente da Divisão de Homicídios e de outras unidades policiais sempre foi pautada pela honestidade e honradez. Afirmou também que as ilações feitas por Orlando tentam desmoralizar e desacreditar instituições idôneas. E que a transferência do miliciano para Mossoró não foi em razão do caso Marielle.

A Secretaria de Segurança Pública do Rio declarou que não vai se pronunciar.



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