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A falta de cuidado em torno da prevenção e tratamento de algumas Infeções Sexualmente Transmissíveis (IST’s), como a Sífilis e o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) têm preocupado os órgãos de saúde pública. O Brasil vive uma epidemia reconhecida pelas autoridades de saúde. Entre 2016 e 2017 os números de infectados por Sífilis cresceram 48%. No ano passado foram notificados 13.328 casos de Sífilis Adquirida, aquela que ocorre em adultos. Para efeito de controle, a Sífilis é dividida em: Adquirida; em Gestantes, e Congênita (transmitida na gravidez ou parto para o bebê).

No município de Mossoró, os casos notificados de sífilis mais que duplicaram, entre 2017 e 2018. Segundo o Boletim Epidemiológico de HIV/Aids e Sífilis do Ministério da Saúde, a cidade notificou em 2017, 13 casos de Sífilis Congênita, 14 em gestantes e 110 em jovens e adultos. No ano seguinte, foram registrados 21 casos de Sífilis Congênita, 34 em gestantes e 240 em jovens e adultos. O aumento, principalmente entre jovens e adultos, acendeu um alerta.


O resultado se equipara aos números nacionais de ocorrências epidêmicas das IST’s.

A Sífilis é uma infecção sexual, curável e exclusiva do ser humano, causada pela bactéria Treponema pallidum. Pode apresentar várias manifestações clínicas e diferentes estágios (sífilis primária, secundária, latente e terciária). Só é contagiosa nos estágios primário e secundário e, às vezes, durante o início do período latente. Raramente, a sífilis pode ser transmitida pelo beijo. Mas também pode ser congênita, sendo passada de mãe para filho durante a gravidez ou parto. Uma vez curada, a sífilis não pode reaparecer – a não ser que a pessoa seja reinfectada por alguém que esteja contaminado.

Diferente da realidade em relação às Sífilis, os dados epidemiológicos mostram que a notificação dos casos de HIV/AIDS registrou queda e se mantém em controle.

Em 2017, foram notificados 81 casos da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS – manifestação da doença decorrente do HIV) e 21 casos de HIV. Já em 2018, foram registrados 51 casos de AIDS e 25 de HIV, o que reflete uma resposta positiva ao tratamento. Isso significa dizer que as pessoas que estão com HIV têm apresentado baixa carga viral para os sinais e sintomas da AIDS. No entanto, o ano passado apresentou quatro casos a mais de HIV se comparado a 2017, fato que já tem deixado em alerta especialistas e profissionais de saúde.

“As IST’s são doenças consideradas negligenciadas e estão intimamente relacionadas às pessoas em situações de vulnerabilidade social. Além disso, é importante dizer que atualmente jovens e adultos em relações monogâmicas, ou seja, casados ou que se dizem ter apenas um parceiro durante toda a vida não tem mais usado preservativos. Obviamente o discurso não pode ser esse, mas atualmente as campanhas em torno disso estão sendo silenciadas por forças conservadoras” explica Mônica Betânia, Assistente Social e Especialista em Pluralidade Cultural e Orientação Sexual.

Para a especialista, o aumento dos casos se deve à "banalização" da doença. Muitas vezes, os pacientes sabem que estão doentes e não procuram atendimento por preconceito ou por medo. “Nós estamos vivendo uma epidemia no País, principalmente de Sífilis. Não é uma situação específica de Mossoró. No entanto, para o contingente populacional da cidade os números são preocupantes. A Sífilis é uma doença que tem tratamento e cura. Sabendo disso as pessoas não têm se importado com a prevenção e acabam se submetendo aos riscos nas suas relações sem segurança, ou seja, acabam sendo expostas” concluiu.

Consultada sobre as características epidemiológicos de Mossoró, Conceição Melo, responsável técnica pelo Programa Municipal IST’s/Aids e Hepatites Virais, informou que o quadro epidemiológico de HIV/Aids se concentra no grupo de heterossexuais. Porém, o índice de casos em jovens gays também tem aumentado, fato este que não difere da realidade epidemiológica nacional, uma vez que todos estão vulneráveis quando não praticam sexo seguro. Conceição reitera que as pessoas que sofrem com as desigualdades sociais estão mais expostas as IST’s/AIDS por conviverem com uma série de fatores que contribuem para a disseminação da doença, no entanto, esta é uma problemática que acomete todas as camadas sociais.

“As pessoas não temem mais as medicações como antigamente, muitos negam sua vulnerabilidade, quando na verdade eles sabem que há um risco muito grande de se contaminarem por não se protegerem. Nós temos hoje um arsenal de medicamentos para não se infectarem. Nós temos a Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) e a Profilaxia Pós-Exposição (PEP). Em Mossoró não atuamos ainda com o PrEP, existe apenas a PEP cujos casos são atendidos no Hospital Rafael Fernandes”, destacou Conceição Melo.

A PrEP é uma abordagem que usa preventivos medicamentosos antes da exposição ao vírus do HIV, reduzindo a probabilidade da pessoa se infectar com vírus. A PrEP, deve ser utilizada apenas se a pessoa achar que pode ter alto risco para adquirir o HIV, como por exemplo, HSH; pessoas trans; trabalhadores/as do sexo e parcerias sorodiferentes (quando uma pessoa está infectada pelo HIV e a outra não). Já a PEP se trata, da ingestão diária de um medicamento contra o vírus por pacientes não infectados após terem se exposto a uma situação considerada de risco.

O fato dos hospitais de referência no tratamento de HIV/Aids oferecerem serviços como a PEP também tem favorecido as relações sexuais sem prevenção, pois no imaginário dos jovens após o sexo é possível não se contaminarem.

Foi o que aconteceu com Carlos Ricardo, de 26 anos. O estudante de designer de jogos informou que durante o carnaval do ano passado foi convidado para participar de um grupo de “orgia” com homens e mulheres na Bahia, enquanto brincava o carnaval. Sete pessoas estavam envolvidas. “Fui convidado por uma moça a participar e ela me entregou preservativos. Me lembro que na hora eu disse para mim mesmo que não usaria preservativo e que depois iria usar o PEP. Queria aproveitar aquele momento ao máximo, pois sempre tive fetiche com isso. Hoje me arrependo, deixei o momento me levar e confiei demais no PEP. Cinco dias depois da orgia que me lembrei de ir ao hospital usar o PEP. Já era tarde demais. Fui informado pela enfermeira que ele só funcionava duas horas após a exposição e no máximo em até 72 horas. Fiquei louco e no mesmo dia fiz os testes. Para minha infelicidade, deu positivo”, relatou Carlos.

“Os jovens acometidos por HIV/Aids e outras IST’s chegam no hospital já com um quadro de sinais e sintomas muito avançado, comumente associados a várias doenças oportunistas e muitas vezes não conseguem nem sair do quadro. O que impõe a necessidade de desenvolver estratégias intersetoriais, incluindo ações de prevenção nas escolas e nas redes de interação juvenil”, recomendou Conceição Melo.

Ações de Educação

No ano passado, a Prefeitura de Mossoró, através da Secretaria Municipal de Saúde, iniciou um projeto piloto para jovens nas escolas com finalidade de conscientizar, prevenir e combater as IST’s. Esse projeto ocorreu durante a campanha “Dezembro Vermelho”, que neste ano será ampliada para outras escolas da rede. “A discussão sobre saúde sexual e reprodutiva nas escolas sofre uma certa rejeição, mas estamos com uma boa perspectiva de trabalhar esta temática em algumas escolas que já começam a nos procurar. Em 2018, as ações foram desenvolvidas no Centro de Educação Integrada Professor Eliseu Viana (CEIPEV) e ocorreram de forma muito participativa e exitosa entre todos que participaram”, declarou Conceição Melo.

No CEIPEV foram realizadas ações de educação sexual e ofertados testes rápidos de HIV, Sífilis, Hepatites B e C. Além disso, foram distribuídos preservativos e materiais educativos. Os jovens também foram vacinados contra HPV e Hepatite B. Foram quase 1.500 estudantes da escola e nenhum exame realizado deu resultado positivo.

O preconceito e a rejeição de algumas escolas sobre a discussão da saúde sexual e reprodutiva, bem como as formas de prevenção é uma demanda histórica. Para a professora da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Kalyane Kelly, Doutora em Enfermagem, Especialista em Saúde do Trabalhador e Pesquisadora em Saúde da Mulher, Criança e Adolescente, estamos vivendo uma onda de conservadorismo, e atrelar ações que envolvam saúde e educação está cada vez mais difícil. “Essas doenças são muito estigmatizadas e antigamente foi construído um arcabouço de preconceitos que perdura até hoje. A rede de educação básica é conservadora e não colabora, não ajuda, não entra em articulação com a saúde”.

A professora destaca que existem ações de prevenção no município, mas de maneira pontual. “O exemplo é o apelo para uso de preservativo na época do Carnaval. Não existem de forma contínua e, assim não são efetivas. Pode-se dizer que não chega informação sobre prevenção a todos os públicos, como adolescentes. Para alguns grupos, falar de IST’s para adolescentes é estimular a prática do sexo, o que constitui uma das barreiras para que a informação chegue a esse público [...] as ações precisam durar o ano todo e chegar aos vários equipamentos sociais, escolas, centros comunitários e, porque não dizer nas igrejas? Todos estão susceptíveis, independentemente de sexo, orientação ou religião, então as ações também precisam ser vastas”.

Agência HiperLAB/UERN


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