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Por *Alicia Kowaltowski via Nexo Jornal 


Não há como negar que estamos cada vez mais gordos. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, índices de obesidade triplicaram desde 1975. Há cerca de 2 bilhões de pessoas com sobrepeso hoje, das quais 650 milhões são clinicamente obesas. Atualmente, a maioria das pessoas no mundo mora em países em que a obesidade é um problema de saúde mais importante do que a desnutrição. E o crescimento da obesidade não para, afetando indivíduos cada vez mais jovens. De fato, o problema da obesidade infantil nos EUA é tão grave, que a expectativa de vida de crianças e adolescentes atuais é menor que a da atual população mais velha – que, em sua maioria, não foi obesa na juventude.

Há diversos motivos pelos quais o excesso de peso diminui a expectativa de vida. Ter sobrepeso ou obesidade aumenta as chances de desenvolver vários tipos de câncer, doenças neurológicas como Parkinson ou Alzheimer, infartos, diabetes e várias outras doenças associadas à idade mais avançada. A medicina moderna tem tratamentos cada vez melhores para essas doenças, mas elas ainda podem limitar o tempo de vida ou, pelo menos, limitar o tempo de vida saudável. E todos nós, creio, queremos viver com mais qualidade, de forma mais saudável.

A população, em geral, parece saber bastante bem que ter sobrepeso ou ser obeso não é saudável. De fato, a maioria das pessoas provavelmente deseja perder peso e até exagerar na magreza, chegando a um tipo físico demasiadamente esbelto disseminado pela mídia. (Não faça isso – assim como o excesso, o peso abaixo do ideal é um sério fator de risco à saúde.) A maior parte da população também sabe que ganhar ou perder peso é, a grosso modo, um balanço entre o que comem e o que gastam. Para perder peso, é necessário comer menos e/ou se movimentar e exercitar mais, para aumentar os gastos de energia da comida. No entanto, embora a solução pareça simples e de amplo conhecimento, nós continuamos engordando. Por quê?

O biólogo e crítico do anticientificismo Theodosius Dobzhansky afirmou há mais de 40 anos que “nada na biologia faz sentido exceto à luz da evolução”. E a verdade é que a atual epidemia de obesidade só faz sentido quando pensamos em como evoluímos. A espécie humana evoluiu durante centenas de milhares de anos para sobreviver por pouco tempo, e em ambientes onde comida tinha que ser encontrada ou caçada. Até cem anos atrás, a expectativa de vida média era de cerca de 40 anos; a maioria das doenças associadas à obesidade aparecem após essa idade. Com o desenvolvimento de sistemas modernos de se obter alimentos, e o aumento da expectativa de vida, repentinamente começamos a ter problemas relacionados ao excesso de comida, e não estamos evolutivamente adaptados para essa situação.

Na realidade, o corpo humano (e de animais em geral) é maravilhosamente bem adaptado para utilizar toda a energia da comida que ingere de forma muito eficaz, e estocar qualquer sobra para necessidades futuras. Nossas células obtêm energia química da nossa comida com uma eficiência significativamente melhor do que os motores dos carros mais modernos obtêm energia de combustíveis. Além disso, se comemos mais do que usamos, temos mecanismos metabólicos bem adaptados para guardar a energia química da comida em excesso na forma de gorduras depositadas no nosso corpo. Depositamos o excesso de energia que comemos como gordura por um motivo simples: é a forma mais eficiente de se guardar energia, tendo aproximadamente o dobro das calorias por grama que carboidratos ou proteínas. Depositar energia de forma eficaz era uma vantagem evolutiva em épocas de escassez, que compreendem a vasta maioria do tempo em que evoluímos, mas hoje se tornou um risco à saúde.

E não somos só eficientes para guardar energia da comida, mas também fomos evolutivamente selecionados para apreciar comida rica em calorias. Anos de evolução selecionaram indivíduos que têm a sensação de fome pronunciada e que gostam particularmente de comidas mais calóricas. Isso garantia aos nossos antepassados ingerir as poucas ofertas de energia que apareciam em quantidade suficiente para garantir estoques de gordura corporal, essenciais para épocas de falta alimentar. Por isso, não é sua culpa que você sente mais fome do que a sua necessidade de comer, nem que gosta justamente daquela comida que mais engorda. Você evoluiu para responder desse modo.

Sabendo disso, fica claro por que combater a obesidade e os problemas de saúde associados a ela somente com educação da população é muito difícil. Não é fácil sobrepujar, apenas com vontade própria, instintos e vias metabólicas tão centrais à sobrevivência, desenvolvidas pelos bilhões de anos de evolução dos seres vivos.

É aí que está a importância da ciência e, principalmente, da ciência básica. Já sabemos por meio da ciência aplicada que a obesidade está ligada a várias doenças, e que prevenir a obesidade pode prevenir essas doenças. Mas ainda estamos estudando como isso acontece. Precisamos entender os mecanismos específicos da obesidade e doenças associadas, a nível das moléculas envolvidas, e suas transformações químicas. É só a partir do momento em que se entende as moléculas participantes que se pode criar novos tratamentos. Isto é: não há avanço científico significativo na área biomédica sem que se desvende novos mecanismos moleculares. É, portanto, completamente equivocada a visão de que se deve investir prioritariamente em estudos de aplicabilidade imediata, pois estudos aplicados isoladamente só podem promover desenvolvimento incremental.

A boa notícia é que não faltam avanços científicos na área de obesidade. Uma busca em base de dados científicos indica que só em 2019 foram publicados 17 mil artigos com o termo. Ou seja, há 17 mil conhecimentos novos gerados por cientistas sobre por que e como engordamos e as consequências disso. Nem todos esses conhecimentos são grandes ganhos, e nem todos se provarão importantes com o tempo, mas muitos certamente são, e a ciência se constrói justamente da soma de esforços e debates entre cientistas de todo o mundo até se chegar em consensos. Obviamente, numa ciência imensamente complexa como essa, nunca haverá soluções simples. Mas esses 17 mil estudos coletivamente aumentam nosso conhecimento, e vão continuamente aumentar nossa capacidade de melhorar nossas vidas, como a ciência tem feito desde o início da humanidade.

Enquanto isso, se recentemente a balança lhe mostrou um ganho de peso indesejado, lembre-se: não é sua culpa não ter o autocontrole para não passar da medida. É culpa da evolução!

*Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”.
Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.
@AJKowaltowski

@LabMetabolism


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