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Enquanto o Brasil ultrapassa a emblemática marca de 50 mil mortes notificadas pelo coronavírus, a ciência ainda não sabe responder a uma das principais dúvidas de pacientes e especialistas que seria crucial para a reabertura mais segura das atividades: quem já teve a Covid-19 está protegido de novas infecções?

Os médicos ainda têm dúvidas se a tão desejada imunidade realmente é criada por todos os indivíduos que manifestam sintomas e, caso positivo, por quanto tempo eles, de fato, seriam protetores: “Esse é um tema que ainda nós não temos uma resposta definitiva. Existem várias possibilidades”, conclui Fernando Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia.

Alguns casos no Brasil têm intrigado os médicos. Pacientes estariam desenvolvendo sintomas e testando positivo para a Covid-19 mais de uma vez, depois de terem sido considerados ‘curados’.

É o caso da médica pediatra Simone Cardoso. Ela manifestou os primeiros sintomas no dia 27 de março e confirmou o diagnóstico para coronavírus pelo teste PCR. Com quadro leve, fez tratamento e isolamento social em casa por 14 dias, e depois, voltou a trabalhar normalmente.

Um mês depois, no dia 29 de abril, estranhou quando os sintomas voltaram: “um mês depois eu comecei a apresentar febre com calafrios. Era o mesmo tipo de calafrio que eu tinha sentido da primeira vez. Eu tinha praticamente certeza que era uma reinfecção. Eu passei mal no plantão, fui para o laboratório e fiz uma nova coleta de PCR.”

O segundo exame também deu positivo. Um detalhe importante é que Simone não fez o teste sorológico na primeira vez que teve a doença para saber se havia criado anticorpos. Mais uma vez, ele teve sintomas leves e conseguiu fazer o tratamento em casa. Já de volta à rotina, ela redobrou os cuidados no hospital: “Da primeira vez eu acabei afrouxando um pouco os cuidados por me sentir mais protegida por uma primeira infecção. Agora, eu fiz o exame e tenho os anticorpos. Mas os médicos não sabem dizer se, de fato, estou imune”.

Relatos como os da Simone são raros e pouco vistos no mundo. Mas se repetem em alguns pacientes, mesmo no Brasil. O anestesista Daniel Tanaka, que mora no interior do Amazonas, também teve os primeiros sintomas leves, em abril, e se curou com tratamento em casa. Em maio, teve sintomas mais pesados e precisou vir fazer tratamento em São Paulo: “tive muita dor no peito e tive que ser internado e ficar no oxigênio por 12 dias.” Assim como a Simone, ele não havia testado anticorpos da primeira vez, o que impede os médicos de saberem se foram criados e, mesmo assim, não houve proteção. Daniel se recupera ao lado da família na capital paulista e está sendo acompanhado por uma equipe no Hospital do Coração.

Especialistas consultados pela CNN explicaram que ainda é cedo para tirar qualquer conclusão sobre os casos. Uma possibilidade seria a reinfecção em alguns pacientes, por alguma relação com a criação de anticorpos que a ciência também não sabe explicar até agora:

“Eu acho mais provável que seja problema imune mesmo algumas pessoas não desenvolveram imunidade em primeira infecção e pode ter relação com queda de IGG, mas não acho que seja um padrão, senão a gente estaria vendo muitos casos e a gente não está vendo”, acredita Natália Pasternak, pós-doutora em microbiologia e pesquisadora da USP.

Outra possibilidade seria uma mesma infecção, com uma reativação do vírus, conforme explica Fernando Spilki, Presidente da Sociedade Brasileira de Virologia: “Existe a possibilidade muito provável – por ser comum em vírus respiratórios – que a gente tenha a infecção e fique com o vírus replicando em níveis baixos, mesmo após a cura por um período longo. A gente tem experiencia de ver 20 dias, 26 dias, 40 dias de diferença entre uma detecção e outra e não necessariamente a gente pode dizer que é uma nova infecção e nem que o vírus tenha se mantido em níveis baixos.”

Os dois especialistas concordam que a criação de anticorpos ainda foi pouco testada no mundo e as repostas são vagas: “O que a gente tem visto é que as pessoas não produzem anticorpos de forma consistente, padronizada, a gente não consegue ver isso para o coronavírus, saber como é a produção e por quanto tempo dura”, acrescenta Natália Pasternak.

Fernando Spilki diz que um dos caminhos para as pesquisas é comparar com outros tipos de coronavírus: “A imunidade para o coronavírus nem sempre é muito duradoura. Para este, em específico, não sabemos. Pode acontecer de um indivíduo voltar a se infectar depois de um tempo. Neste momento, há grandes dúvidas sobre possibilidade de reinfecções.”

Os especialistas ressaltam que, pela falta de estudo mais detalhados sobre a imunidade, mesmo as pessoas que já curaram da Covid-19 devem manter os cuidados de distanciamento social e higiene. Eles explicam, porém, que os casos de pessoas que tiveram a doença mais de uma vez em pouco tempo são isolados e pouco vistos pelo mundo: “Não há motivos para pânico, mas sim, para cuidados e cautela”, conclui Natália.

CNN Brasil


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